Brincar com palavras: como incluir a Comunicação Aumentativa no momento da brincadeira
Muita gente associa a Comunicação Aumentativa e Alternativa (CAA) a momentos "sérios": pedir comida, avisar que precisa ir ao banheiro, contar como foi o dia na escola. Mas um dos ambientes mais ricos para a comunicação acontecer — e crescer — é a brincadeira. É no chão, entre bonecos, carrinhos e blocos de montar, que a criança se sente segura para tentar, errar e tentar de novo.
Se você usa pictogramas em casa, vale a pena trazer essa mesma ferramenta para o momento do brincar, sem pressa e sem cobrança.
Por que brincar é um terreno tão bom para a comunicação
Durante a brincadeira, a criança já está motivada: ela quer aquele brinquedo, quer repetir aquela cena, quer que o adulto participe do jeito certo. Essa motivação natural facilita a comunicação, porque a criança tem um motivo real para se expressar — não é uma tarefa imposta, é um desejo dela.
Além disso, brincar costuma ser repetitivo (a mesma cena do carrinho batendo, o mesmo boneco caindo da cadeira), e repetição é exatamente o que ajuda a fixar o uso de uma palavra ou pictograma.
Ideias práticas para usar CAA na brincadeira
- Narre a brincadeira em voz alta, apontando os pictogramas correspondentes enquanto fala — mesmo que a criança não responda de imediato, ela está absorvendo o modelo.
- Deixe pictogramas de ação por perto ("de novo", "cair", "correr", "parar"), já que brincadeiras costumam girar em torno de verbos, não só de objetos.
- Pause no auge da brincadeira — bem na hora em que a torre vai cair ou o carrinho vai bater — e espere a criança pedir "de novo" antes de continuar.
- Ofereça escolhas com dois pictogramas ("boneco" ou "bola"?) em vez de perguntas abertas, que são mais difíceis de responder.
- Brinque de faz de conta com pictogramas de sentimentos, como "feliz" e "bravo", dando nome ao que os bonecos estariam sentindo na cena.
No parquinho e em espaços abertos
Fora de casa, um cartão pequeno ou o próprio celular com o quadro de comunicação pode acompanhar a família até o escorregador ou a pracinha. Pictogramas como "subir", "descer", "minha vez" e "mais" costumam ser os mais usados nesses momentos — vale ter esse conjunto sempre à mão.
O que evitar
É comum querer aproveitar cada brincadeira para "trabalhar" comunicação, mas isso pode transformar um momento de prazer em uma cobrança constante. Vale lembrar:
- Nem toda interação precisa virar uma pergunta ou um teste.
- Se a criança não usar o pictograma, continue modelando — o objetivo é oferecer o exemplo, não exigir a resposta.
- Brincar sem nenhuma exigência também tem valor: dá espaço para a criança guiar a interação.
O objetivo não é transformar o brinquedo em ferramenta terapêutica, mas deixar a comunicação circular livremente por um espaço onde a criança já está confortável e motivada.
Pequenos passos, todos os dias
Não é preciso planejar uma atividade elaborada. Um pictograma de "bola" perto da caixa de brinquedos, uma pausa proposital no meio de uma cócega, um "quer mais?" sussurrado com o cartão na mão — são esses pequenos gestos, repetidos com carinho, que ajudam a comunicação a florescer no ritmo de cada criança.