Avós, tios e primos também conversam: como incluir a família estendida na CAA

Avós, tios e primos também conversam: como incluir a família estendida na CAA

Por Equipe Tagatela · 23 de setembro de 2026

Em muitas famílias, a Comunicação Aumentativa e Alternativa (CAA) começa dentro de casa: mãe, pai, irmãos e terapeutas aprendem aos poucos a usar a prancha ou o aplicativo. Mas aí chega o almoço de domingo na casa da avó, a festa de aniversário do primo ou as férias com os tios, e surge aquela sensação de que a conversa fica restrita a poucas pessoas. A boa notícia é que dá para mudar isso, e o resultado costuma ser bonito de ver.

Por que incluir a família estendida?

Comunicação é, antes de tudo, relação. Quando só uma ou duas pessoas sabem interagir com a CAA, a pessoa usuária acaba dependendo delas como intérpretes. Quando avós, tios, padrinhos e primos também entram na conversa, ela ganha mais oportunidades de se expressar, mais parceiros diferentes e mais chances de construir vínculos próprios, do jeito dela.

Além disso, cada familiar traz assuntos, piadas, memórias e jeitos de falar diferentes. Isso enriquece o vocabulário e mostra, na prática, que a CAA serve para a vida toda, e não só para a escola ou a terapia.

Comece pelo porquê, não pelo como

Antes de explicar botões e categorias, vale explicar o sentido. Algumas frases simples ajudam a abrir o caminho:

Muitos familiares, especialmente os mais velhos, podem ter receio de errar ou achar que a tecnologia é complicada demais. Tranquilize: ninguém precisa virar especialista. O mais importante é a disposição para ouvir.

Três atitudes que qualquer pessoa pode aprender

1. Esperar

O tempo de resposta com CAA costuma ser maior do que na fala oral. Explique à família que o silêncio não é desinteresse: é a pessoa procurando a palavra. Contar mentalmente até dez antes de ajudar já faz uma diferença enorme.

2. Falar com a pessoa, não sobre ela

É comum que um parente pergunte à mãe “ele quer suco?” em vez de perguntar diretamente. Incentive todos a se dirigirem à própria pessoa usuária de CAA, olhando para ela e dando espaço para a resposta.

3. Usar a CAA também

Quando o avô toca em quero e bolo enquanto fala “eu quero bolo”, ele está mostrando que aquela forma de comunicar é valorizada por todos. Não precisa ser em toda frase; alguns toques aqui e ali já contam muito.

Prepare o vocabulário para os encontros

Uma forma carinhosa de aproximar a família é personalizar a CAA com elementos dela:

Uma ideia bacana é pedir aos próprios parentes que sugiram palavras e enviem fotos. Assim eles se sentem parte da construção, e a pessoa usuária encontra na CAA o mundo afetivo dela.

Um guia de bolso para visitas

Para quem vê a pessoa com menos frequência, um pequeno roteiro ajuda muito. Pode ser uma folha impressa na geladeira da avó ou uma mensagem no grupo da família, com itens como:

  1. Como ela diz sim e não (gestos, expressões, botões).
  2. Onde ficam as palavras mais usadas no aplicativo ou na prancha.
  3. Assuntos de que ela gosta de conversar no momento.
  4. O que fazer se ela parecer frustrada: esperar, oferecer a CAA, perguntar com calma.
  5. Um lembrete: a CAA é a voz dela, então ela deve estar sempre por perto.

Lidando com resistências e dúvidas

Às vezes aparecem comentários como “no meu tempo não tinha isso” ou “se der o aparelho, ela não vai querer falar”. São preocupações comuns, geralmente nascidas do carinho e da falta de informação. Vale responder com calma, compartilhar a experiência de vocês e, se possível, convidar o familiar para uma sessão com a equipe terapêutica ou para assistir a um momento de conversa real. Ver a pessoa se comunicando costuma convencer mais do que qualquer explicação.

Também é importante respeitar o ritmo de cada um. Tem tio que vai abraçar a ideia no primeiro dia e avó que vai precisar de algumas visitas para se sentir à vontade. Tudo bem.

Celebre as pequenas conversas

O primeiro “oi, vovô” pela CAA, a primeira piada contada ao primo, o primeiro pedido feito direto para a tia: esses momentos merecem ser notados e comemorados. Eles mostram para todos, inclusive para a pessoa usuária, que a voz dela alcança cada vez mais gente.

Família grande é conversa espalhada pela casa toda. Com um pouco de preparo e muita paciência, a CAA pode estar presente em cada canto dela.

No Tagatela, você pode criar pranchas com fotos, nomes e frases da sua família para levar a cada encontro. Experimente montar uma prancha especial para a próxima visita aos avós e conte pra gente como foi!