CAA e o brincar de faz-de-conta: a imaginação como caminho para a linguagem

CAA e o brincar de faz-de-conta: a imaginação como caminho para a linguagem

Por Equipe Tagatela · 20 de agosto de 2026

Brincar de faz-de-conta é uma das atividades mais ricas da infância. Quando uma criança finge que a boneca está doente, que o boneco de pelúcia vai viajar de foguete ou que a caixa de papelão é uma nave espacial, ela está exercitando algo muito maior do que imaginação: está organizando ideias, testando sequências de eventos e, principalmente, praticando linguagem.

Para crianças que usam Comunicação Aumentativa e Alternativa, esse tipo de brincadeira às vezes fica de lado. É comum ouvir que a criança precisa primeiro dominar certas habilidades de comunicação para só depois participar do faz-de-conta. Mas a ordem pode — e costuma — ser o contrário: é brincando que a linguagem se desenvolve.

Por que o jogo simbólico importa tanto

No faz-de-conta, um objeto vira outro, uma pessoa vira outro personagem, e uma sequência de ações ganha um enredo. Esse é exatamente o tipo de pensamento simbólico que sustenta a linguagem: usar um símbolo (uma palavra, uma figura, um sinal) para representar algo que não está fisicamente ali.

Por isso, brincar de faz-de-conta com CAA não é uma atividade paralela à comunicação — é comunicação em ação, só que disfarçada de diversão.

Levando o dispositivo ou a prancha para dentro da brincadeira

Não é preciso transformar a brincadeira numa sessão de treino. A ideia é deixar a CAA disponível e presente, do mesmo jeito que os brinquedos estão espalhados pelo chão.

Palavras que aparecem naturalmente

Brincadeiras de faz-de-conta trazem à tona palavras de ação (dormir, comer, voar, cair), de emoção (com medo, feliz, bravo) e de relação entre personagens (dentro, embaixo de, junto com). Não é preciso planejar uma lista fechada antes de começar — os próprios personagens e situações vão indicando o que é preciso dizer no momento.

Ideias simples para começar

Algumas brincadeiras clássicas funcionam muito bem porque têm papéis claros e sequências fáceis de repetir:

O segredo não está em escolher a brincadeira certa, mas em repeti-la várias vezes. É na repetição que a criança começa a antecipar o que vem a seguir e a se sentir segura para experimentar novas formas de participar.

Quando a brincadeira não sai como o script

Às vezes a criança vai querer que o dinossauro coma o carro, ou que o boneco durma de cabeça para baixo. Tudo bem. O faz-de-conta não precisa fazer sentido lógico — ele precisa ser divertido e dar espaço para a criança propor as próprias ideias, ainda que sejam bem diferentes do que um adulto esperaria.

Na brincadeira simbólica, o objetivo não é chegar a um final certo. É construir a história juntos, um turno de cada vez.

Cada vez que uma criança usa a CAA para mudar o rumo da brincadeira — pedir para trocar de personagem, recusar um papel, propor um final diferente — ela está exercitando não só vocabulário, mas também a própria voz dentro da narrativa. E isso vale muito mais do que seguir um roteiro perfeito.