Escolher também é comunicar: como abrir espaço para escolhas reais com a CAA
Pense em quantas escolhas você faz antes do almoço: o que vestir, o que comer, qual música ouvir, com quem conversar, se prefere ir a pé ou de ônibus. Para muitas pessoas que usam Comunicação Aumentativa e Alternativa (CAA), boa parte dessas decisões acaba sendo tomada por outras pessoas, quase sempre com boa intenção, na correria do dia. Mas escolher é uma das formas mais poderosas de comunicar quem somos.
Neste artigo, a Equipe Tagatela reúne ideias práticas para transformar os pequenos momentos da rotina em oportunidades reais de escolha com a CAA.
Por que as escolhas importam tanto?
Quando alguém escolhe, está dizendo ao mundo: eu tenho preferências, eu tenho vontade, eu faço parte das decisões. Oferecer escolhas com frequência ajuda a:
- Fortalecer a autonomia, mostrando que a opinião da pessoa tem efeito concreto no que acontece.
- Dar motivos para comunicar, já que escolher algo desejado é uma razão muito natural para usar o sistema de CAA.
- Conhecer melhor a pessoa, suas preferências, gostos e jeitos de ser.
- Construir confiança, porque a pessoa percebe que sua mensagem é ouvida e respeitada.
Escolhas reais, não escolhas de enfeite
Uma escolha só é verdadeira quando a resposta será respeitada. Se perguntamos se a pessoa quer suco ou água, mas só temos água em casa, a mensagem que fica é que escolher não adianta. Por isso, antes de oferecer opções, vale se perguntar:
- Eu consigo atender qualquer uma das opções que estou oferecendo?
- Estou preparado para aceitar a resposta, mesmo que não seja a que eu esperava?
- Essa escolha faz sentido para a pessoa, ou é só um exercício?
Quando algo realmente não é negociável, como tomar banho ou ir à escola, ainda dá para oferecer escolhas dentro da situação: qual toalha?, banho antes ou depois do desenho?, qual mochila levar?
Começando pelo simples: duas opções
Para quem está começando, escolher entre duas opções costuma ser um bom ponto de partida. Algumas dicas:
- Mostre as opções de forma clara, apontando para os símbolos na prancha ou no aplicativo, e, se ajudar, mostrando também os objetos reais.
- Nomeie cada opção enquanto aponta: “Você quer massinha ou quebra-cabeça?”
- Espere com calma. O tempo de resposta pode ser maior do que estamos acostumados. Conte mentalmente até dez, ou mais, antes de repetir.
- Responda à escolha feita, entregando o que foi selecionado e nomeando: “Você escolheu massinha. Vamos lá!”
E se a pessoa escolher algo e, ao receber, demonstrar que não era aquilo? Tudo bem. Isso também é aprendizado. Você pode dizer, modelando no sistema: “Ah, não era isso. Vamos tentar de novo?”
Ampliando o leque de possibilidades
Com o tempo, dá para aumentar o número de opções e o tipo de escolha. Algumas ideias de progressão:
- De duas para várias opções: uma página inteira de lanches, brincadeiras ou lugares.
- De objetos para atividades: escolher não só o que comer, mas o que fazer, onde ir e com quem.
- De escolhas concretas para opiniões: gostei, não gostei, mais ou menos, quero de novo.
- Incluir a opção 'outra coisa': um símbolo como outro ou nenhum dá à pessoa a chance de dizer que nenhuma das alternativas serve.
Esse último ponto merece destaque. Quando só oferecemos opções fechadas, limitamos o que a pessoa pode dizer. Ter sempre um caminho para outra coisa ou não quero nenhum amplia de verdade o poder de escolha.
Escolhas espalhadas pela rotina
Não é preciso criar momentos especiais para praticar. A rotina já está cheia de oportunidades:
- Manhã: roupa, cor da escova, música para acordar.
- Refeições e lanches: fruta, bebida, copo ou prato preferido.
- Brincadeiras: qual brinquedo, com quem brincar, dentro ou fora de casa.
- Passeios: praça ou parque, carrinho ou caminhada, qual caminho seguir.
- Fim do dia: qual história, pijama, luz acesa ou apagada.
No Tagatela, você pode organizar pranchas temáticas para esses momentos, deixando as opções mais usadas sempre à mão e fáceis de encontrar.
Quando a pessoa não escolhe
Às vezes a pessoa não responde, olha para outro lado ou parece não se interessar. Antes de concluir qualquer coisa, vale observar:
- As opções são realmente interessantes para ela?
- Ela está cansada, com fome ou em um ambiente muito barulhento?
- O jeito de apresentar as opções está acessível para a forma de acesso que ela usa?
- Houve tempo suficiente para responder?
Lembre-se também de que a comunicação acontece de muitas formas. Um olhar mais demorado, um sorriso, um gesto em direção a um objeto: tudo isso pode ser uma escolha. Reconheça e nomeie essas respostas, conectando-as aos símbolos da CAA.
Respeitar o não escolher
Por fim, às vezes a escolha da pessoa é simplesmente não escolher agora, ou deixar que outra pessoa decida. Isso também é válido. O objetivo não é transformar cada momento em uma pergunta, e sim garantir que, ao longo do dia, a pessoa tenha muitas chances reais de influenciar sua própria vida.
Cada escolha oferecida é um convite: sua voz importa aqui.
Comece pequeno, com uma ou duas escolhas novas por dia, e observe o que acontece. Muitas vezes, é nessas decisões simples que as pessoas ao redor descobrem gostos, opiniões e personalidades que estavam esperando espaço para aparecer.