Presumir competência: o ponto de partida de toda comunicação
Existe uma pergunta que atravessa toda a Comunicação Aumentativa e Alternativa (CAA), mesmo quando ninguém a faz em voz alta: o que essa pessoa é capaz de entender? A resposta que damos — muitas vezes sem perceber — molda o vocabulário que oferecemos, o jeito como falamos, o quanto esperamos e até o que consideramos uma conquista.
Presumir competência é escolher, deliberadamente, a resposta mais generosa: partir do princípio de que a pessoa compreende, pensa, tem preferências e tem algo a dizer — ainda que hoje não consiga mostrar isso. É um princípio ético e também uma estratégia prática, porque é ele que abre a porta para tudo o que vem depois.
O que significa presumir competência
Presumir competência não é fingir que dificuldades não existem, nem ignorar a necessidade de apoio. É inverter o ônus da prova.
Na prática, em vez de pensar “vou oferecer mais vocabulário quando ela provar que domina o que já tem”, passamos a pensar “vou oferecer vocabulário rico agora, porque ela pode estar pronta e só não teve como demonstrar”. Em vez de “ele não entende o que eu digo”, passamos a “ele pode estar entendendo muito mais do que consegue responder”.
A diferença entre essas duas posturas é enorme. A primeira cria um teto: a pessoa só recebe oportunidades depois de provar que merece. A segunda cria um chão: as oportunidades vêm primeiro, e a pessoa cresce dentro delas.
Compreender é uma coisa. Conseguir mostrar que compreendeu é outra, completamente diferente — e depende de motricidade, de ferramenta disponível, de tempo e de quem está do outro lado.
Por que isso importa tanto na CAA
Muitas pessoas que usam CAA passaram anos sem uma forma confiável de responder. Quando finalmente têm acesso a um recurso adequado, é comum que o entorno demore a recalibrar suas expectativas: o dispositivo chega, mas a conversa continua sendo feita sobre a pessoa, e não com ela.
Quando a competência não é presumida, alguns efeitos aparecem quase sempre:
- O vocabulário oferecido fica restrito a pedidos básicos — comer, beber, banheiro — e a pessoa nunca recebe palavras para opinar, discordar, contar ou brincar.
- As perguntas viram testes (“cadê o vermelho?”) em vez de conversas (“qual você prefere?”).
- Os adultos respondem no lugar da pessoa antes que ela tenha tempo de se organizar.
- Atividades ficam presas num nível infantilizado, mesmo com adolescentes e adultos.
Nenhuma dessas coisas acontece por má intenção. Acontecem porque, no fundo, alguém concluiu que não valia a pena — e essa conclusão costuma se confirmar sozinha, já que sem oportunidade não há como demonstrar nada.
Como colocar em prática no dia a dia
Fale com a pessoa, não sobre ela
Se você está numa consulta, numa reunião de escola ou na sala de casa, dirija-se diretamente a quem usa CAA. Use o nome, olhe para a pessoa, explique o que está acontecendo. Se precisar conversar com um terceiro sobre ela, faça isso na presença dela e com transparência — ou em outro momento, se for algo que você não diria na frente de qualquer pessoa.
Ofereça mais palavras do que você acha que ela usa
Um vocabulário enxuto demais não protege ninguém de se confundir; apenas limita o que pode ser dito. Inclua palavras para discordar, para comentar, para perguntar, para fazer graça. A pessoa vai escolher o que faz sentido — e algumas dessas escolhas vão surpreender.
Respeite o tempo de resposta
Montar uma mensagem em pictogramas leva mais tempo do que falar. Segundos de silêncio incomodam quem fala, mas são tempo de trabalho para quem usa CAA. Conte mentalmente até dez antes de repetir a pergunta, reformular ou responder no lugar. Muita coisa que parece falta de compreensão é só falta de tempo.
Trate tentativas como comunicação
Um toque impreciso, uma palavra fora de ordem, um pictograma que parece não ter relação — tudo isso pode ser uma tentativa legítima. Responda ao que foi dito, mesmo que você precise adivinhar um pouco: Você tocou em água. Está com sede ou quer ir para a piscina? Responder ensina que comunicar funciona; ignorar ensina o contrário.
Ajuste o conteúdo à idade, não à etapa de comunicação
Um adolescente que está começando a usar CAA continua sendo um adolescente. Os temas, as músicas, o humor e o tom de voz devem acompanhar a idade dele, não o número de palavras que ele produz hoje.
Suponha que ela está ouvindo
Comentários sobre diagnóstico, prognóstico, cansaço da família ou dificuldades na escola chegam aos ouvidos de quem está no ambiente. Presumir competência inclui presumir que a pessoa entende o que se diz ao lado dela.
E quando não há resposta?
Nem sempre presumir competência traz retorno imediato. Há dias sem resposta, períodos de cansaço, fases em que nada parece avançar. Isso é esperado e não invalida o princípio.
O que ajuda nesses momentos é separar duas perguntas. A primeira é sobre a pessoa; a segunda é sobre o contexto. Antes de concluir que algo é difícil demais para ela, vale revisar: o recurso está acessível na posição em que ela está? O vocabulário necessário estava disponível na tela? Houve tempo suficiente? Havia motivo real para se comunicar, ou era só um exercício? Com que frequência ela vê alguém usando a CAA para se comunicar de verdade?
Na maior parte das vezes, ajustar o contexto muda mais o resultado do que qualquer conclusão sobre a pessoa.
Um princípio que também protege quem apoia
Presumir competência alivia uma pressão silenciosa que muitas famílias carregam: a de ter que provar, o tempo todo, que vale a pena investir. Quando o ponto de partida é a confiança, cada dia deixa de ser uma avaliação e volta a ser o que deveria: convivência, conversa, vida em comum.
E há um detalhe importante: ninguém precisa acertar sempre. Dá para começar hoje escolhendo uma única coisa — esperar mais dez segundos, incluir três palavras novas na prancha, falar diretamente com a pessoa na próxima consulta. Pequenas mudanças de postura, repetidas, mudam o que é possível dizer.
No Tagatela, esse princípio orienta o produto: pictogramas personalizáveis, vocabulário que cresce junto com a pessoa e frases construídas a partir do que ela escolhe — para que a ferramenta acompanhe a pessoa, e não o contrário.
Se você está começando agora, guarde esta ideia: a competência que você presume hoje é o espaço que a pessoa terá para ocupar amanhã.