Vocabulário periférico: como personalizar a CAA para a vida real da pessoa

Vocabulário periférico: como personalizar a CAA para a vida real da pessoa

Por Equipe Tagatela · 15 de agosto de 2026

Quando uma família começa a estruturar o vocabulário de um dispositivo de Comunicação Aumentativa e Alternativa, é comum ouvir falar sobre palavras de alta frequência, aquelas que aparecem em praticamente qualquer conversa. Mas existe outro tipo de vocabulário, igualmente importante, que costuma receber menos atenção: o vocabulário periférico. São as palavras específicas, pessoais e às vezes até imprevisíveis que fazem a comunicação soar como a voz única daquela pessoa, e não como uma lista genérica de frases prontas.

Pense em nomes de colegas de turma, o personagem favorito de um desenho, o apelido carinhoso de um animal de estimação, o tempero preferido no arroz, ou uma gíria que só faz sentido dentro daquele grupo de amigos. Nenhuma dessas palavras é essencial para formar frases básicas, mas todas elas são essenciais para que a pessoa se expresse com autenticidade sobre a própria vida.

Por que esse vocabulário importa tanto

Uma prancha ou aplicativo de CAA que só tem palavras genéricas permite comunicar necessidades, mas dificilmente permite contar uma piada interna, comentar sobre o time do coração ou dizer o nome do brinquedo novo que ganhou de presente. É justamente esse tipo de conteúdo específico que constrói vínculos, gera identificação entre amigos e deixa claro quem é aquela pessoa, com seus gostos e sua história.

Comunicação não é apenas trocar informação. É também mostrar quem somos, do que gostamos e o que nos faz rir.

Ignorar o vocabulário periférico é um dos motivos pelos quais alguns sistemas de CAA acabam parecendo distantes da vida real da pessoa. Ela consegue pedir água ou dizer que está com dor, mas não consegue comentar sobre a série que assistiu ontem à noite ou perguntar pelo nome daquele lançamento de jogo que todo mundo comenta na escola.

Como identificar as palavras certas

O primeiro passo é observar e, sempre que possível, perguntar diretamente à pessoa o que ela gostaria de conseguir dizer. Algumas fontes valiosas de vocabulário periférico incluem:

Vale lembrar que esse vocabulário muda com o tempo. O personagem favorito de hoje pode não ser o mesmo daqui a seis meses, e uma gíria que está em alta agora pode cair em desuso rapidamente. Por isso, revisar e atualizar essas palavras periodicamente é parte do processo, não uma tarefa extra.

Envolvendo a própria pessoa nas escolhas

Sempre que possível, a pessoa que usa a CAA deve participar ativamente da escolha desse vocabulário. Perguntas simples como o que você queria poder falar e não consegue? ou observar o que desperta entusiasmo, frustração ou curiosidade no dia a dia costumam revelar lacunas importantes. Quando a pessoa ainda não consegue expressar essas preferências de forma direta, prestar atenção a gestos, olhares, expressões faciais e ao que capta sua atenção também oferece pistas valiosas.

Organizando o vocabulário periférico no dispositivo

Diferente do vocabulário-núcleo, que geralmente fica fixo e acessível em poucos toques, o vocabulário periférico costuma ser mais volumoso e específico, o que exige uma organização cuidadosa para não sobrecarregar as telas. Algumas estratégias úteis:

O importante é que essas palavras estejam acessíveis quando forem necessárias, sem exigir muitos passos de navegação, já que frequentemente elas surgem em momentos de entusiasmo ou urgência em compartilhar algo.

Um vocabulário que acompanha a vida

O vocabulário periférico é, em essência, um reflexo da individualidade. Ele muda conforme a pessoa cresce, faz novas amizades, descobre novos interesses e vive novas experiências. Manter esse vocabulário vivo e atualizado é uma forma concreta de reconhecer que a comunicação vai muito além de necessidades básicas: ela é sobre identidade, pertencimento e a possibilidade de compartilhar quem realmente somos com o mundo ao nosso redor.

Na Tagatela, acreditamos que cada palavra periférica adicionada ao dispositivo é também um passo a mais na construção de uma comunicação verdadeiramente pessoal e significativa.